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O Vale de Baca e a peregrinação da alma no Salmo 84

Às vezes eu penso como o coração humano tem sede de Deus. O salmista começa celebrando:

“Felizes os que habitam em tua casa, Senhor, e sempre te louvam” (Sl 84,5 – BJ).

Eugene Peterson traduz assim:

“O que felicidade: viver na tua casa, cantando e rindo em tua presença!” (A Mensagem).

Fico observando como o salmo é honesto, ele fala de alegria e presença, mas também de caminho, esforço, peregrinação. Porque a vida não é só templo e louvor, é também estrada, poeira, e até lágrimas.

O Vale de Baca

O texto diz:

“Ao atravessarem o vale árido, fazem dele um lugar de fontes, e a primeira chuva o cobre de bênçãos” (Sl 84,7 – BJ).

Em A Mensagem, fica assim:

“Ao passarem pelo vale do Choro, eles o transformam em um oásis, cheio de fontes borbulhantes. A chuva das primeiras estações enche as lagoas.”

Olha que inversão maravilhosa! O lugar das lágrimas se torna oásis. O espaço da aridez se torna fonte. O que você acha se Deus, justamente onde mais dói, abrir um manancial?

A Bíblia de Jerusalém lembra que “Baca” pode ser tanto uma árvore quanto a raiz do verbo “chorar”. Ou seja: pode ser um vale literal ou o vale da alma. No fundo, ambos se encontram, porque existem desertos do lado de fora e do lado de dentro.

Peregrinação e resistência

Teresa de Ávila dizia que a vida de oração passa por desertos interiores. Não é só êxtase, é também pranto, silêncio, secura. Ela repetia: “Nada te turbe, nada te espante; tudo passa, Deus não muda.”

John Bunyan, em O Peregrino, descreve Cristão atravessando desfiladeiros, enquanto preguiçosos e enganadores tentam atrasar sua jornada. E eu fico pensando, não é exatamente isso que sentimos? No vale de Baca aparecem distrações, tentações para desistir, cansaço. Mas o salmista insiste dizendo: quem segue, mesmo chorando, vê a chuva transformar o caminho.

O mistério da travessia

Às vezes eu pergunto, “Senhor, por que o caminho precisa passar pelo vale?”
Eugene Peterson coloca assim:

“Eles continuam em frente, e a força deles cresce a cada passo. E o Deus Todo-Poderoso os recebe em Sião.” (A Mensagem, Sl 84,8).

O salmo é incrivelmente intrigante. É como se o salmo dissesse que o vale não é o fim, é apenas parte do caminho. O que você acha se for justamente ali, no lugar de dor, que Deus vai te ensinar a depender dele de verdade? Mas é realmente isso que o salmmista está dizendo.

A Bíblia de Jerusalém sugere que esse salmo pode ter sido escrito no exílio. Faz sentido, porque o vale de Baca é também a saudade de Jerusalém, a dor de não poder estar no templo. Mas mesmo na distância, Deus se faz presente.

Fico observando como a vida cristã é resistência. Não é só chegar, é não desistir no caminho. A Mensagem traduz:

“Eles seguem de força em força até se apresentarem diante de Deus em Sião.”

Ou seja: cada passo no vale, cada lágrima derramada, cada oração seca, tudo isso faz parte da peregrinação.

Uma cisterna no caminho

Eu sou nordestino, e sei o que significa viver em terras secas. A cisterna é esperança. Quando chove, mesmo que pouco, a água se junta ali e garante a sobrevivência em tempos de seca. Sem cisterna, a vida não resiste no sertão.

O vale de Baca me lembra isso. O peregrino, ao atravessar o lugar seco, não encontra rios caudalosos, mas aprende a transformar lágrimas em pequenas cisternas espirituais. Cada gota de pranto, recolhida na presença de Deus, vira reserva para continuar caminhando.

E aqui eu penso numa crítica necessária: hoje em dia, muitos movimentos cristãos querem viver só de feitos, quase como se a vida de fé fosse uma sucessão de vitórias épicas, montanhas conquistadas e heróis invencíveis. Mas o salmo não fala de lendas, fala de peregrinos. Não fala de façanhas instantâneas, fala de gente que atravessa o vale chorando, mas não para de andar.

Estudando esse Salmo com meu querido professor Luiz Fernando Arêas, pude perceber que esse é um salmo de peregrinação. Eles não estão passeando; eles precisam ir. A jornada tem destino, Jerusalém, o monte santo, o lugar da presença. Imagino os peregrinos subindo, cansados, cheios de poeira, mas ao chegar no alto e avistar a cidade de Sião, todo o esforço valeu a pena.

Não é isso que o salmista diz?

“De força em força eles caminham, até verem Deus em Sião” (Sl 84,8 – BJ).

Não é assim também conosco? o vale não é o fim, ele é só a estrada que leva ao encontro com Deus. Meu querido peregrino, o vale de Baca é real. Mas também é real o Deus que cobre o deserto com a primeira chuva. Teresa, Bunyan e o salmista nos lembram que a vida espiritual não é apenas destino, é travessia.

E eu fico pensando, e se as nossas lágrimas forem sementes para o oásis que ainda vai brotar? E se o deserto for o lugar onde descobrimos a fonte que não seca?

Senhor, ensina-me a atravessar o vale. Não me deixes desistir. Faz das minhas lágrimas mananciais e dá-me coragem para seguir de força em força, até o dia em que estarei na tua presença. Amém.

Jean Sousa

Amo ser Marido da Tânia, Pai do Riquelme e Heitor. Bel em teologia, pesquisador e diretor de arte. Especialista em design thinking e mestrando em teologia pelo Seminário Teológico Servo de Cristo.

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